sábado, 29 de setembro de 2018

sitio pau-amarelo a casinha onde nasci.

SITIO PAU-AMARELO A CASINHA ONDE NASCI: Amigo Gaudério. --Quanta alegria eu sinto quando deparo com alguem que me é caro feito você. Imagine que você chegou à casa do seu verdadeiro irmão. Imagine também que este Caluje* é uma bela residência tal e qual a sua bonita Mansão... Pois bem, então se sinta à vontade e tome assento em qualquer um desses tamboretes, e, por favor, não repare a rudeza do seu acabamento, pois eles aqui representam a fina flor da movelaria brasileira, e nem poderia ser diferente, já que, todos estes assentos são fabricados com a madeira mais nobre existente na região amazônica, estando equiparadas as madeiras mais famosas da movelaria nacional: Logo o Jacarandá, o Acapu, o Angelim, o Jatobá, o Ipê, a Macacauba e até o caríssimo Mogno e o Pau rosa, são todos sucedâneos do Pau-Amarelo, que também é conhecido como Pau de Candeia e Pau Cetim. Não repare também se só tenho esse “velho catre**” onde poderás passar a noite se assim quiseres, já que eu o - convidei para estares hoje aqui, pois preciso contar-te a estória de como este teu menor amigo veio ao Mundo. Segundo a minha mãe, eu nasci as duas horas do dia 06 de março de 1933,uma segunda feira, sob uma Choupana de Pau-a-pique que estava situada aqui mesmo, neste local, e como testemunho só existe ainda esse velho esteio de Acapu-Pixuna, madeira que a terra não consegue destruir.Esse igarapé aí a frente, tem o apelido de Pitinga***, e este local tinha o apelido de Sitio Pau-Amarelo, e era o penúltimo sitio habitado, distando do antepenúltimo “Sitio Capitania” cerca de 900 metros, e distava do último, Sitio Livramento 500 metros; estando em relação ao Sitio São Brás***¹, meia légua de distância dentro de extensa mataria. Meu pai falava que colocou o nome de Sitio Pau-Amarelo em homenagem às centenárias e gigantescas arvores dessa madeira, que pertence à família das Rutáceas, e para a Botânica conhecida como (Euxylophora Paraensis) que tinha em grande quantidade nestas matas, em especial, no entorno do Sitio. Minha mãe, segundo seu depoimento, engravidou doze vezes “incluindo dois abortos” e, dos dez filhos que concebeu, dois nasceram sem auxílio de uma Parteira, como são conhecidas as mulheres que auxiliam as Parturientes na hora da chegada do Bebê. É que seus partos eram muito rápidos a partir da hora que ela sentia dor! Assim eu fui um filho que nasci sem assistente: contava ela, que meu pai era muito indolente, e ao ser solicitado para ir buscar a única parteira da redondeza, que por sinal era sua irmã e morava no Sitio São Brás, distando meia légua do Sitio Pau-Amarelo, ele primeiro perguntou se era para já, depois levantou com toda morrinha eaté que preparasse uma Lamparina com a tocha bem grande e apanhasse espingarda, terçado, chapéu, tabaqueira e tudo mais e percorresse uma légua, (ida e volta) quando chegou com a parteira eu já estava agasalhado em minha pequeníssima rede fabricada por ela mesma,(mamãe) em primitivo Tear,e tecida com fibra de Guaxuma***²então, ao adentrar no quarto e ficar inteirado que eu já havia chegado, ele caminhou até minha rede, levantou o pano que cobria o meu corpinho, olhou para meu ínfimo rostinho e pasmo pronunciou...essa porcaria lá que se cria, é tão pequenino que parece até um passarinho. Daí a origem do apelido que carrego desde meu nascimento e que já coliguei ao meu nome, pelo qual serei lembrado até mesmo depois de morto. Por volta de 1937, após lutar tenazmente contra violento impaludismo, meus avós vieram a falecer, o que forçou o retorno do meu pai para junto dos irmãos que, com exceção do Capitão Severiano, (Capitania e Luiza Souza Vasconcelos, Livramento) moravam juntos na casa paterna, ou seja, no sitio São Bras. Meu pai então fez uma cabana a mais ou menos cem metros da casa grande e aí mudamos para Santa Bárbara. Nessa cabana chamada casinha nós moramos apenas três anos e mudamos para o lugar chamado Candeua, pois meu pai foi ser empregado de um Libanês chamado Miguel Elias, proprietário de uma serraria que empregava os homens da região, no entanto o salário era o mínimo do mínimo, insuficiente para suprir uma família grande a exemplo da nossa e por isso os meus irmãos mais velhos, Bernardino 15 e Manuel 13 anos respectivamente, passaram a trabalhar na serraria a- fim de ajudar nas despesas caseiras enquanto eu ajudava meu pai na mata, limpando estradas para que ele pudesse transportar as enormes toras de madeira que tirava para a serraria, as quais eram conduzidas através de carros de boi.Foi exatamente a partir dos sete anos que aprendi a fumar; é que meu pai com o intuito de espantar os mosquitos que não dão trégua para ninguém na mata, fazia cigarros de palha a fim de afugentá-los através da fumaça. Lembro que nesse período andava dando muito impaludismo nas pessoas então a mamãe e eu contraímos tal doença ficamos malíssimos a ponto de sermos transportados em redes da casa que morávamos para o Barracão, (um casarão tipo vila aonde morava um total de vinte famílias ) onde ficamos na casa da vovó Chiquinha Paraguaia, uma velha benzedeira que cuidou de nós, pois nessas alturas nós estávamos só pele e osso, completamente desnutridos e a febre nos castigando a ponto de ficarmos completamente carecas, e o interessante desse episódio é que quando meus cabelos renasceram já vieram ondulados eles que eram lisos tipo índio. Quando me recuperei dessa doença fiquei morando com os Salame na casa grande. Menos mal, pois foi aí que experimentei o meu primeiro par de sapatos e passei a usá-los com freqüência já que eram sapatos velhos usados pelos dois meninos filhos dos donos da casa, seus nomes Miguel e Elias Salame respectivamente. De lá só sai aos treze anos quando fui para Belém morar e trabalhar com o meu cunhado Duca Jurujaia na Serraria Nazaré, no fim da Rua dos Tamoios. Minha função lá era trabalhar como regulador de uma máquina a vapor, a qual tocava a serraria.Como esta não tinha mais a válvula regaladora de velocidade, era necessário que uma pessoa fizesse esse trabalho; dessa maneira eu passei a ser o regulador da máquina. Quando ainda estava no Candeua eu consegui fazer as duas primeiras series primarias, todavia não recebi boletim de conclusão, pois naquele tempo os professores dificilmente iam a Belém e, portanto, não levavam nem relatório de aprovação de aluno; então em Belém continuei estudando a noite, pois trabalhava o dia inteiro e às vezes ainda fazia hora extra para poder mandar algum para a minha família. Minha professora em Belém chamava-se Perpetua e era linda demais. Muito meiga e carinhosa ela gostava de passar a mão na cabeça da gente quando estávamos com alguma dificuldade e por conta disso sempre que podia eu fingia não saber a lição, somente para ter aquele afago já que fui criado na pancada, no puxão de orelha e na esculhambação. Lá consegui aprender o equivalente a terceira e quarta series, porem por ser escola particular não tive direito a receber boletim escolar. Aos dezessete anos meu cunhado me alistou na 28ª CR (Circunscrição de Recrutamento do Exército) e cinco meses depois fui convocado para o serviço militar. Aos primeiros dias de fevereiro de 1952 fui selecionado ao lado de outros rapazes para servir como soldado na Base Aérea de Belém, situada em Val-de-Cans. Meus primeiros dias de caserna foram terríveis, pois as pessoas que não tem profissão definida ou que tem pouca escolaridade como no meu caso, sofrem muita humilhação, são tratadas com rispidez pelos superiores, os quais na sua grande maioria são soldados antigos ou cabos: no meu caso, a primeira tarefa que recebi foi fazer limpeza nos vasos sanitários de um prédio que em minha dedução era um W.C coletivo, pois era um sem número de vasos sanitários muito sujos, por sinal, dando a nítida impressão que foi feito a propósito! Na verdade, eu apenas reprisei aquilo que estava acostumado fazer quando estava na residência dos Salame, haja vista que esse era o meu primeiro café. Dessa maneira eu iniciei e encerrei a minha primeira semana de recruta; que bom que esta vida é como uma grande escada na vertical onde você é apenas um degrau colocado nela aleatoriamente, pois por mais humilde que você seja sempre está acima de alguém; assim, no meu caso, eu troquei a faxina pelo gramado porque enquanto muitos companheiros continuavam dando duro nos sanitários eu jogava futebol, pois os homens descobriram que eu era bom de bola e por ai começou a minha odisséia na Base Aérea de Belém. Após o período de recruta, ou seja, após o primeiro trimestre de vida militar e já bastante familiarizado com a nova situação nós fomos chamados para ver quem ficava na Companhia de Guarda, (A Cobra) para fazer Infantaria; quem não quisesse teria que ser transferido para a Companhia de Comando e Serviços e de lá poderia optar por outro destino. Como eu já jogava bola pelo time do Parque, o Sargento Zacarias que era o treinador do time pediu a minha transferência para a Companhia de Comando para de lá eu ser efetivado no parque de manutenção, e enquanto isso eu fiquei trabalhando na Esquadrilha de Adestramento onde passei a fazer limpeza em peças de avião e enquanto aguardava uma definição do meu caso eu ia me entrosando com o pessoal da Esquadrilha a ponto de desistir de ir para o Parque, então em setembro de 1952 eu fui anexado ao Destacamento Especial de São Luiz do Maranhão o qual naquele tempo fazia parte da 1ª Zona Aérea com sua sede em Belém. Em setembro mesmo eu viajei em companhia de vários colegas para SãoLuiz já que fomos substituir o contingente que estava lá cujo tempo de serviço já havia esgotado. Assim viajamos dezessete soldados, dois cabos, cinco sargentos dois taifeiros e um tenente; e viajamos todos no mesmo avião. Como eu já trabalhava na Companhia de Comando fazendo pequenos serviços de ajudante de mecânico, ao chegar a São Luiz, eu que fora transferido para tirar sentinela apenas fiz esse serviço quatro ou cinco vezes se tanto chegou: é que fui logo classificado na garagem e com quatro meses de destacamento eu já dirigia qualquer carro do nosso efetivo; então tratei de estudar para tirar carteira de motorista e também cuidei de fazer o Artigo 91 (antigo ginásio), pois tinha esperança de fazer o curso de sargento especialista. Para isso comecei a treinar com os sargentos Solonel, Cárdias, Sotomano e cabo Cerezo todos controladores de voo os quais me ensinaram bastante sobre essa nobre arte que é controlar as aeronaves que transitam diuturnamente no espaço aéreo brasileiro... De maneira que aprendi e até trabalhei tirando serviço desses colegas quando estes tinham algo a fazer e dentro desse trabalho cheguei a fazer ponte para aeronaves que não eram ouvidas pelas torres de controle das cidades de destino e pediam informação e permissão para pousar sem obter resposta: era aí que entrava a ajuda daquela estação que estava na escuta, a qual imediatamente contatava a torre da cidade a qual o avião estava chegando, e passava as informações para a aeronave. Em S.Luiz, permaneci pelo período de dois anos, retornando a Belém, em fins de 1954, indo diretamente para a garagem, já que fiquei lotado no quadro de motorista, ficando exclusivamente como motorista do oficial de operações, trabalhando 24x48 horas, ou seja, trabalhava um dia e folgava dois em casa Em Belém demorei apenas dois meses, pois viajei para o Rio de Janeiro onde fui fazer um tratamento médico! É que segundo o médico que me encaminhou, eu tinha algo na laringe que precisava ser tratado, aí então viajei no Almirante Alexandrino, um belo navio que pertencia ao Loid Brasileiro e que a época transportava passageiros em suas três classes. Passamos 29 dias viajando e nesse período eu vivi os 26 dias mais, “como dizer” mais humilhantes da minha vida de rapaz: é que fui obrigado pelas circunstancias a me amigar com uma pessoa a quem a princípio julgava ser um homem, desde o porto de São Luiz do Maranhão até o Rio de Janeiro... Calmo amigo; a mulher não era eu. O negócio foi assim... Eu havia deixado em S. Luiz, na pensão da D. Iolanda, situada no bairro do João Paulo, uma linda moça chamada Celeste, que eu namorava desde que cheguei ao Maranhão. Como eu havia sido transferido, também liberei a moça de qualquer compromisso pessoal, no entanto, quando o navio ancorou em S. Luiz, os passageiros foram avisados que o mesmo passaria três dias fundeado ao largo para carregar e descarregar manufaturados, e quem quisesse, poderia saltar e só comparecer dali a três dias. Claro que para mim caiu à sopa no mel, como diz o adágio! Então eu imediatamente fui ao encontro da Celeste, pois tinha esperança que ela ainda se tornasse receptiva em relação a mim. Ledo engano; a Celeste havia viajado logo após a minha partida, pois segundo a D.Iolanda, ela jurou não deitar mais com homem nenhum naquela pensão: é que segundo ela eu tinha sido o seu maior amigo, a quem ela jamais trairia naquele lugar. Lógico que eu fiquei desapontado, porem como estava na cidade, achei por bem ficar hospedado aqueles três dias na pensão, ao fim dos quais retornei ao navio, porem ao chegar ao meu camarote encontrei a porta arrombada e todos os meus pertences foram roubados, inclusive o dinheirinho que levava para minha manutenção no Rio, e que estava bem escondido no fundo falso da mala. Fiquei desesperado, fui ao comandante, fiz a maior zorra, porém não deu em nada; conclusão eu fiquei numa de horror: fiquei apenas com a roupa do corpo e sem uma triste moeda no bolso, pior que isso, ter que passar ainda quase um mês sem ter ao menos uma cueca para trocar! Passei o primeiro dia no camarote sem café e sem comer, pois estava completamente desorientado: e no segundo dia também não quis tomar café e estava no bico de proa olhando as toninhas (golfinhos) nadando junto ao navio, quando ouvi um vozeirão atrás de mim: era um oficial negão enorme todo paramentado em uma farda de capitão que estava sentado no cabeço da proa. Fiquei meio apavorado quando ele falou que estava sentido com o que havia acontecido comigo, todavia estava disposto a me ajudar conquanto eu também colaborasse com ele... Fiquei muito nervoso a ponto de querer fugir do negão, porém este me acalmou dizendo que não era o que eu estava pensando e-coisa-e-tal e-tal-e- coisa, e que o homem era eu, que por sinal nem homem ele era pois estava vestido em um uniforme de capitão da marinha mercante brasileira graças à colaboração que tivera de um oficial seu amigo ao qual conheceu em uma viagem que fizera á Caiena, capital da Guiana Francesa onde ela possuía um belíssimo hotel, e de onde havia fugido após insólita perseguição política que sofrera. Para não ser presa fugiu para Belém e de lá para o Rio, quando recebeu ajuda do referido oficial que lhe emprestou seu uniforme e ainda a escondeu em seu camarote depois de acertar sua permanência entre a tripulação. Falou que havia tomado conhecimento do que tinha ocorrido comigo, e por ter simpatizado com a minha pessoa, por isso queria que eu colaborasse com ela até a nossa chegada ao Rio de Janeiro onde ela pretendia ficar até resolver seu problema diplomático, pois tencionava voltar para seu país o mais rapidamente possível! Confesso que fiquei meio abobalhado e com certo asco da negona, todavia a minha situação era caótica e não pude resistir quando ela falou que só queria que eu a-possuísse e deixasse o resto com ela pois ela ia dar de volta tudo o que tinham me roubado multiplicado por dois, e que era pegar ou largar: conclusão peguei me dei bem e foi assim que cheguei zero- quilo no Rio de Janeiro e a negona Mirela. (Assim era o seu nome) ainda foi me deixar de Táxi na Base Aérea do Galeão. No Rio de Janeiro fui encaminhado a uma junta de saúde, pois conduzia uma ordem de inspeção, haja vista que havia passado em concurso quando se manifestou o problema em minha laringe, assim fiquei impedido de fazer o primeiro semestre e fiquei a disposição da junta, porém, sem nenhum tratamento específico e enquanto isso meus colegas de turma se adiantaram ao mesmo tempo em que eu permanecia a disposição da junta medica que ao final de dois anos e após exaustivos exames chegou à conclusão que eu e mais dois colegas que adoeceram lá teríamos que ser reformados ex-oficio ao posto de terceiro sargento e promovidos a segundo sargento não podendo prover os meios de subsistência, e, então em setembro de 1957 eu retornei à Belém já na qualidade de reformado, vindo residir em Santa Bárbara, minha terra natal onde acabei firmando namoro com a moça mais bonita à época, ou seja, a garota que há três anos atrás tinha me deixado de queixo caído com sua formosura de menina-moça que naquele tempo ela era. Assim, no dia dez de maio de 1958 depois de inúmeras parlengas entre nossas famílias, as quais eram antagônicas a nossa união, eu recebi com as bênçãos de meus pais e com o consentimento embora a contragosto da família dela, a mão da minha querida e para sempre amada esposa Delia, que para mim continua mais linda de que antes e mais feliz de que nunca, até porque me deu com a graça de Deus sete filhos maravilhosos, os quais, já estão me fazendocaducar com os netos que possuímos a Delia e eu, e por sinal já somos até Bisa “ comodiz o nosso querido e amadoBiso Takashi”. É tudo o que tem a dizer-te o seu amigo mais que Irmão Souza. Pequeno Glossário: *.........…Caluje= Palhoça, Rancho. **..........Catre= Cama rústica e desconfortável.***........Pitinga=Em Tupi-Guarani quer dizer Branco, Claro = Cuia que nunca foi usada, Cuia Pitinga, Cuia-branca.***¹......Sitio São Braz- Sitio em Santa Barbara que Pertenceu aos Meus Avós e Família, “pela ordem” João Candido de Souza e Josefina Lopes de Souza e família, herança de Felícia Gomes da Silva. ****²…Guaxuma=Planta da família das Malváceas, (Urena-Lobata, Malva) Devaneio Soneto. Quando eu voltar: se eu voltar contente, Quero ver o lugar onde nasci, E também os lugares que vivi, A minha vida como Adolescente! É que, na minha vida insipiente, Nada guardei daquilo que aprendi, Por isso, hei de voltar um dia aqui, E pedir escusas para a minha gente! Pretendo ver, como último desejo, No Pau-Amarelo quero ter o ensejo, De perscrutar com meu raciocínio, Para escutar quando meu pai dizia, Essa coisinha aí lá que se cria, É tão pequeno como um Passarinho!!!

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