domingo, 16 de outubro de 2022
O Pilho
O PILHO
A sua chegada foi uma festa extraordinária, pois apesar das conseqüências, sempre foi muito esperada, já que era a primeira prenda herdada de sua menina querida e cheia de dengos. Tudo estava pronto, desde o berçinho encostado à cama da avó, que logo ficaria com a primazia do tratamento da criança, matéria que era perfeccionsta, pois já havia demonstrado sua eficiência na criação de sete filhos.
Na verdade, há muito que ela já vinha tomando conta da criança, eis que acompanhava a mãe daquela nas visitas que fazia ao Médico, e em todos os exames solicitados por este sendo assim, já se sabia até o sexo do bebê. Começou a caducar, desde a hora que lhe disseram que o anjinho ocupante daquele berçinho na verdade era uma menina... Camisinhas e sapatinhos róseos, toucas e meias de lã, babadores e fraldas de cambraia cuidadosamente bordados com desenhos de bichinhos, tudo carinhosa e caprichosamente confeccionado por ela foi adicionado aos brinquedos que ia comprando em cada incursão que fazia ao comercio.
Bonecas de celulóide de todos os tamanhos, bichinhos de borracha, jogos de brinquedos plásticos em formato de utensílio de cozinha e, entre tantos bichinhos de pelúcia, sua avó incluiu um ursinho branco com os olhos bem amendoados puxando para o verde, orelhas curtas e nariz róseo.
Aos primeiros anúncios de que o bebê não tardaria a chegar, sua avó cuidou de arrumar os objetos necessários, chamou um Táxi e imediatamente levou a parturiente para a Clinica São Benedito.
O avô, dono de uma pequena madeireira localizada em outra cidade, só via a família de 15 em 15 dias, quando então tomava conhecimento dos fatos passados em casa durante esse período. Assim, ao chegar à residência, naquele fim de semana, teve a impressão que fora sumariamente abandonado, pois só encontrou mesmo a casa fechada e sequer um aviso dando conta de alguma novidade.
Sem saber o que realmente havia acontecido, começou a disparar telefonema para todos os lugares possíveis e imagináveis! Aquilo não poderia ser boa coisa, haja vista que sua querida esposa, jamais sairia do lar sem ao menos deixar um pequeno recado em forma de bilhete, o que sempre fazia prendendo-o ao bibelô de porcelana, trazido de Portugal, por um de seus antepassados, o qual demorava sobre pequena mesa de centro redonda e com o tampo de vidro.
Depois de inúmeras ligações para casa de parentes, amigos, conhecidos, sem obter nenhuma informação que lhe apontasse o destino da esposa e após relutar uns minutos, resolveu perguntar a uma vizinha, que sabia da vida de todo mundo, se ela poderia lhe informar algo sobre sua senhora, porque não conseguira notícia alguma através dos contatos que fizera, apesar de já haver contatado com todo mundo, incluindo aí o Pronto - Socorro e até a policia!
Na realidade, nem foi preciso perguntar absolutamente nada, pois à medida que se aproximava da casa, a vizinha disparou sua famosa metralhadora rotatória!
“Oi, vizinho! Boa – tarde! Faz um tempão que eu não lhe vejo! A propósito, a vizinha com sua filha, aquela que está esperando neném, saíram. Eu acho que elas foram para a maternidade, pois tomaram um Táxi que saiu cantando pneu e a vizinha levava consigo uma sacola, que parecia ir cheia de roupa! Vai ver que uma hora desta o senhor já é vovô não é? Eu imagino a felicidade da sua filha, tão bonitinha e tão novinha já com um bebê, pois é eu fico com uma inveja danada porque o meu marido nem pra isso presta”
Ela queria continuar regurgitando fofoca, todavia o homem agradeceu pela informação, pediu desculpas e voltou á casa para atender o telefone que estava tocando a um bom tempo... Correu para o aparelho, arrancou-lhe do gancho e falou com certa dose de melancolia na voz.
“Alô! A quem fala por gentileza?” Não precisou voltar a perguntar, pois do outro lado da linha a voz da sua esposa se fez ouvir nitidamente:
“Graças a Deus, meu velho! Ela chegou e é perfeita e linda como a mãe dela. Está tudo bem com as duas e comigo também. Não te preocupes, pois amanhã bem cedo estaremos aí, quando nos veremos a não ser que queiras vir nos apanhar.”
“Ta legal! respondeu o interlocutor. amanhã então conversaremos; vou descansar um pouco, porque estou estafado da lida diária!---tchau! Desligou” precisava realmente descansar depois de tantas aflições, era necessário repousar, por isso atirou-se na cama e dormiu profundamente. Acordou às 23 horas, com a algazarra dos seis filhos que chegaram da faculdade, sendo que juntos ainda passaram pela maternidade São Benedito, onde visitaram as três; mãe, irmã e sobrinha. Ao perceberem a presença do pai, todos se olharam e, também, acabou-se a papagueada; beijaram-lhe a mão respeitosamente enquanto uma das duas moças afagando-lhe a face transmitia ao mesmo tempo a mensagem da esposa, dispensando-o de apanhá-la na maternidade, pois este seria o encargo do filho mais velho.
De fato às nove horas, o rapaz apanhou as chaves da Belina, colocou-a em funcionamento e lá se foi buscar a mãe, a irmã e o bebê, que, ainda na maternidade, já colocara todo mundo em casa para trabalhar, incluindo aí o vovô, que, mesmo desajeitado tentava ajudar a organizar o quarto da netinha, e, como não manjava nada de coisa de criança simplesmente apanhou o ursinho e o pendurou sobre o berço, que ficava no centro do quarto.
Passava um pouco das dez horas, quando a Belina estacionou em frente à residência da família que acabara de receber o seu mais novo membro. O veiculo parou e dele saltaram, além da parturiente a avó que já trazia em seus braços uma menina tão linda que se assemelhava mais a uma boneca... Ao vê-la o avô se derreteu em lágrimas, não se sabendo até hoje se de felicidade ou de remorso por não haver concordado a princípio com a gestação de sua amada filhinha!
O certo é que a partir daquele dia o avô virou o maior fã daquela criança, e num esforço supremo viajava toda madrugada para supervisionar os trabalhos na madeireira, de onde retornava impreterivelmente ás vinte e uma horas, de segunda a sábado, o que acabou virando um ritual.
Passaram-se os meses e a menina foi crescendo cercada de carinhos e cuidados ao extremo. Seu quarto repleto de brinquedos de todos os tipos lhe ofereciam inúmeras opções: bonecas, panelas pratos, xícaras, conjunto de roupinhas, macaquinho de plásticos e inúmeros bichinhos de pelúcia, todavia devido ela ter tomado contato primeiramente com o ursinho branco dos olhos amendoados, que fora pendurado sobre seu berço pelo desajeitado avô; a criança simplesmente aferrou-se ao brinquedo a quem só largava quando estava dormindo e, assim mesmo ao acordar, tinha que vê-lo ao seu lado senão ela aprontava o maior barraco com todo mundo!
Quando começou a falar a primeira palavra que pronunciou com nitidez foi dirigida ao bichinho de pelúcia a quem carinhosamente colocou nos bracinhos, lhe afagando com a face e lhe chamando de Pilho! Até os três aninhos toda a sua atenção estava voltada para o Pilho, a quem dava banho, penteava e vez em quando lhe aplicava algumas palmadas certamente para ensinar-lhe o bom comportamento inexistente na mãe.
Assim, entre abraços, beijos e safanões misturados com ralhos e afagos viveram os dois: mãe e pilho durante três inseparáveis anos. Até que uma das tias, apaixonada por cachorros, lhe trouxe de presente de aniversário uma cadelinha da marca Poodle Toe, a qual chegou muito pequena, pesando se tanto quinhentos gramas, era linda e bem branquinha igual um capucho de algodão. Sua dona que já falava bem, lhe colocou o apelido de Yana e se não fosse pelo seu alarido dava muito bem para ser confundida com o pilho, porém à medida que crescia ia deixando toda gente da casa maluca, pois ninguém podia passar perto dela, eis que se enroscava na perna da pessoa, mordendo lhes os pés ou os calcanhares! Passava dia e noite nessa agonia e quando por ventura sua dona se descuidava, ela então se engalfinhava com o pilho, que a partir daí ia pagar o pato.
Esse apego da criança com o ursinho, demorou mais ou menos três anos e meses, pois com o crescimento da menina o brinquedo foi ficando em segundo plano, menos para a Yana, que vivia com ele as pedradas e só o soltava quando ia se enroscar à perna de alguém.
Quando completou quatro aninhos, a mãe da menina levou-a para morar consigo em outra cidade, ficando os avós apenas curtindo a saudade da ausência da netinha querida, a quem dedicaram boa parte das suas vidas. Também os outros filhos após ficarem todos adultos cada qual tomou o seu rumo e até a tia da menina levou consigo a Yana, ficando apenas os avós da menina querida e muito amada.
Certa ocasião, a senhora muito tristonha remexia os brinquedos no quarto da neta, quem sabe para matar a saudade, quando deparou com o pobre do pilho, que estava jogado por trás do pequeno guarda-roupa da netinha, completamente abandonado e imundo. Sua pelúcia branca agora parecia só uma fuligem de carvão. Tudo nele estava negro, inclusive o nariz, que tinha a cor de rosa. Sem dúvida alguma a avó chorou ao ver o pilho. Recolheu este que fora o brinquedo predileto da neta e colocou-o de molho em uma bacia, contendo água sanitária. Dentro de dois dias operou o milagre de recuperar o ursinho, que foi por muito tempo o companheiro de sua netinha formosa!
Hoje, vinte e três anos após a chegada daquela criança tão linda, que mais parecia uma boneca, os avós, já bastante idosos e solitários, para não morrerem de tédio e também para manterem viva a lembrança da neta querida, que por um desses caprichos da natureza acabou casando e indo morar do outro lado do mundo, caducam com o pilho, que está perfeitinho e agora até dorme de pijama no meio dos avós, que o tratam como se vivo estivesse; conversam com ele, que parece viver cheio de felicidade.
Todavia, essa felicidade pode não ser eterna, eis que os avós estão cientes que já tem um bisneto, com sete meses, o qual está de viagem para o Brasil; logo ao chegar a casa dos bisavós, com toda a certeza vai fazer como sua mãe, quando bebê, brincar,dar banho, morder, socar e finalmente defenestrar o pobre do pilho. É esperar para ver...
domingo, 2 de outubro de 2022
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