Eram exatamente cinco horas e trinta minutos
(05.30) do dia primeiro de Maio de 1964, Sexta-Feira. Recordo-me como se fosse
hoje, Santa Bárbara amanhecia mergulhada em profunda ressaca, já que naquela
noite de 30 de abril os homens que trabalhavam na Serraria Fortaleza e que
moravam em Santa Bárbara, trabalharam das dezenove horas, quando a maré começou
a encher até às 03 horas e 30 minutos do dia do trabalho, justamente até o termino
da vazante: ocasião que acabaram de descarregar a muamba que chegou no terceiro
Barco advindo de Caine. Se por acaso tivessem demorado mais “digamos” 05
minutos a embarcação ficaria encalhada, eis que, quando a maré vaza o igarapé
fica sem nenhum calado, impossibilitando a navegação de qualquer embarcação,
mas como ainda restava um pouco de maré, o Iate saiu às duras penas, arrastando
o seu casco até ao estuário do velho Candeua...ele foi o último daquela noite a
descarregar bagulho! Dois Iates já haviam descarregado suas mercadorias que
variavam de Automóveis a Televisores, rádios, Fogão à Gás, Geladeiras, Motores
estacionários a Diesel, a Gasolina, elétricos e de Popa, Sandálias, Sapatos,
roupa Jeans e muito, mas muito WYSKI. La
em Santa Bárbara, eu, o Santa Rosa, o Jurivaldo e o João Ramos, também fazíamos
os nossos preparativos no Batelão do “compadre Chespa” que nos levaria até a
Mauricia. É que eu havia prometido fazer um pequeno reparo lá na casa do meu
sogro Gabriel, o nosso querido Gabito, para que nós, a Délia mais quatro filhos
e eu ficássemos bem agasalhados e não viessemos a causar algum desconforto aos
meus sogros. O interessante é que nós também estávamos curtindo o serão daquela
noite de trinta de Abril para primeiro de Maio, pois quando começava o
movimento lá no porto da Serraria, a gente tinha impressão que era no terreiro
de casa e aí ninguém dormia com a algazarra do pessoal a carregar contrabando.
Assim, duas da matina, nós começamos a carregar os bregueços que íamos levar:(
material de pintura, poucas tábuas de parede e algumas ripas para fazer o tal
conserto na parede e dar uma incrementada na pintura da casa). As 05 h, saímos
do porto da Olaria do compadre Chespa, “seu nome, Joaquim Felix Ribeiro tio e
digamos” pai de criação da D. Délia, e quando o batelão confrontou a boca do
Furo Grande, eis que avistamos as luzes de navegação do penúltimo Iate que saiu
do Candeua após haver terminado sua desova. Vinha trazendo uma serie de ondas
provocadas pelo deslocamento do Barco que era tocado por um potente Motor Alemão
marca Kiel com 250 HPs. Ao passar pelo nosso Batelão alguém lá do Iate gritou -- hei do boi...
Aí o Jurivaldo que era moleque que só respondeu---aonde tu já viste boi de pau
FDP, o barco sumiu e o batelão seguiu pulando atrás, e nós observando as luzes
de navegação do belo iate que se distanciava, com suas luzes de navegação
definhando a medida que ele fazia o contorno da ilha dos Periquitos...foi
definhando até sumir de
vez.—Continuamos a nossa viagem, João Ramos gingando, Santa Rosa fazendo café
em um fogão improvisado em uma lata de querosene, Jurivaldo contando piadas, eu
fumando e todos nós sorrindo. Confrontamos as pedras da boca do furo das
Barreiras exatamente as 06 horas da manhã do dia 1º de maio. Neste exato
momento emergia de dentro da água na Foz do caudaloso Tauá, um enorme disco avermelhado.
Era o rei dos reis, majestoso e impoluto saindo para cumprir o seu ciclo de
trabalho cá na terra. Era o Sol, o maior dos operários que Deus nos envia
diária e gratuitamente. Que beleza, pois para nossa felicidade nós viajávamos
diretamente ao seu encontro e graças ao senhor, nossa chegada coincidiu também
com a chegada dos seus primeiros raios. Maurícia acordava junto com a nossa
chegada, e como de costume, sua beleza matinal deixava os viandantes perplexos
com o aroma dos laranjais que floresciam em todas as residências que lá
existiam. Seus moradores também acordavam ouvindo o marulhar das ondas do Furo
da Baía, (ou das Marinhas) que vinham quebrar em praias de lama ou barrancos existentes
em sua orla, onde também se percebia a presença da Bela Flor* que balançava, como
que bailando ao som das ondas que quebravam preguiçosamente na prainha de lama
existente na ponte principal do Povoado; e a Tua Mana, (que parece que dormia) encalhada
no porto do seu dono Antônio Cardoso, após a dura labuta do dia anterior... Lá atrás,
ou seja, na boca do Juacaca, tínhamos visto muito bem agasalhada no porto do
seu Zacarias, amarrada em um varejão a
Tua Irmã que pertencia ao Poncinho. Na ribanceira
do porto do seu Gabito, existia uma velha Seringueira envergada sobre a pequena
praia existente em frente à residência. Tinha um galho, estendido como se fosse
um enorme braço aberto por baixo da arvore, onde se via uma corrente dobrada ao
meio com suas duas pontas segurando uma pequena tábua; aquilo era uma espécie
de trampolim que, tanto servia de balanço para as pessoas se atirarem na água
ao tomar banho, como servia para o seu
Gabito pendurar os grandes peixes que costumava pescar, ele que era conhecido
como o pescador de Filhotes da Mauricia, eis que frequentemente pescava enormes
Bagres, conhecidos por Filhotes ou Piraíbas ** e ao chegar com os peixões pendurava-os
no dito Trapézio para avaliar o seu peso,
medir seu tamanho para através destes
itens, classifica-lo por nome, (se filhote ou Piraíba) e também retalha-lo para
vender ou distribuir com os parentes. Diga-se a bem da verdade que, o seu
Gabito era um exímio pescador, (pescava Várias marcas de peixe, entre estes a
Dourada, a Piramutaba, o Cangatá, Bacu, e outras marcas de peixe, de água doce
e salgada) tapava igarapés e pescava camarão. Todavia, somente ele sabia o
ponto exato e também a qualidade da isca que atraía a Piraíba, assim como também
a maré que elas costumam navegar os grandes Rios, tributários da Bacia Amazônica
e dos Rios Tocantins e Araguaia, já que, segundo os renomados historiadores, a
Piraiba, a Pirarara e o Jaú são habitantes exclusivos da Bacia Amazônica e dos
rios Araguaia e Tocantins, por isso viajam incontáveis milhas pelos grandes
rios de água doce que sofrem influência de maré, a acompanhar os cardumes de
peixes menores que migram constantemente para os rios tributários dessas “bacias”
em busca de alimento e consequentemente viram alimento dos peixes maiores. Ora bolas, história de
pescador é o que não falta, assim os historiadores falam que os grandes peixes
dificilmente são pescados em qualquer maré e sim somente quando estas sofrem influência
da Lua, que por sua vez, causa um frenesi nos peixes, obrigando-os a deixar
suas tocas e navegar milhas e milhas, rio -acima rio- abaixo, em busca de alimento.
Logo o pescador que conhece estas nuances, sabe qual a fase da lua que influencia
a maré, a qual movimenta os cardumes, os quais trazem consigo os grandes peixes
predadores. Por outro lado, sabe-se por experiência que, tanto a Lua Cheia,
quanto a Minguante, são as duas fases mais adequadas para a pratica da pesca
com linha que contenha muitos anzóis, pelo fato das noites se tornarem mais
claras, o que faz com que os peixes saiam de suas tocas e se organizem em
grandes cardumes! Eis ai talvez o grande segredo do Sr. Gabito...saber exatamente
qual a fase da lua que trazia consigo esses peixões, lindos, enormes e
saborosos os quais ele costumava pescar um, e várias vezes, até dois Filhotes
ou Piraíbas no mesmo dia! Eis aí um pequeno retrospecto da perícia do Sr.
Gabito, ele que sem sombra de dúvida foi o maior pescador de Filhotes ou Piraíbas
do seu tempo: quanta saudade!!!
FIM
Glossário...
·
Bela Flor, Tua Mana e
Tua irmã era nomes atribuídos a três Canoas de Pesca pertencentes aos três
sobrinhos do Sr. Gabito, pela ordem=João Belo...Bela Flor, Antônio Cardoso=Tua
Mana e Poncinho= Tua Irmã, e lá na Bacabeira, na ilha das Barreiras tinha a Tua
Mãe, pertencente ao Sr Olinto Cordeiro, conhecido como velho Olintão.
**
Filhote ou Piraíba=Grande Bagre da família Brachiplatystoma Filamentosum,
habitante da Bacia Amazônica e dos Rios Araguaia-Tocantins. Quando adulta chega
a pesar 300 quilos e medir 2.8 metros. O Filhote pode medir até1.5 metros e
pesar até 90 quilos.