terça-feira, 2 de junho de 2009

Saudade do Pau do Santo!!! meu castelinho o ouro do tauarié

Você precisava ver: a coisa era mais ou menos assim... A bandinha tocava de preferência uma dessas marchinhas que são executadas em retretas nos coretos em praça pública quando existe uma comemoração importante no lugar.
Especialmente nesse ano vieram dezoito músicos, entre estes, o Castanha, o Filipinho, o Santaninha, o Mimi-Barata o Agnelo e o Raimundo Tamanqueiro.
O Castanha, ex-hanseniano era um excelente maestro e tocava vários instrumentos, porem devido ter as mãos atrofiadas, vítima da doença, dava preferência à instrumentos de três teclas, e no momento tocava um Trompete.
O Filipinho, tocava um Sax – Tenor.
O Santaninha tocava um Trombone- de- Vara, enquanto o Mimi-Barata, sargento de milícia, tocava um Pistão com Surdina.
Agnelo no Banjo e Raimundo Tamanqueiro na Bateria manejavam esses instrumentos com a leveza e delicadeza dos melhores artistas...E todos esses fenomenais elementos eram comandados pela batuta inconfundível do Maestro Antonio Paulo, exímio tocador de clarineta
O arraial estava enfeitado de bandeirolas de papel de seda e ramagens de samambaia, amarrada firmemente em varões de madeira previamente fincados em redor da praça para servir de poste de iluminação, onde se via em cada poste, quatro lampiões de Querosene lindamente decorados com papel celofane.
Ligeiramente abaixo dos lampiões, via-se inúmeras qualidades de flores...Rosas, Jasmins, Bugaris, Generais,7 Orquídeas, Papoulas, enfim uma genéria enfeitava aquela praça que tinha sido toda ela decorada no capricho pelas moças do lugar.
No trapiche do vilarejo era bonito de se ver... Cascos, Canoas,Batelões e até Igaritês, às dezenas se agasalhavam lado alado, como que descansando de longas viagens que fizeram singrando os rios, servindo de transporte a centenas de romeiros ribeirinhos que vieram para o evento.
Na pracinha existiam duas gangorras, um escorrega e uma barcaça de madeira em formato de baleeira que pertencia ao acervo da irmandade e que permaneciam o tempo todo ocupado pela criançada que brincava sem parar.
A Igrejinha era muito bonitinha... Toda pintada com tabatinga, já que não se conhecia tinta industrial por estas plagas, mesmo assim o povo cuidava dela com muito carinho e nem poderia deixar de ser, pois naquele tempo todo mundo era adepto do catolicismo e diga-se a bem da verdade, nem se ouvia falar em protestantismo no lugar. Assim todas as pessoas que para ali convergiam, eram católicas e iam para tomar parte na festividade de qualquer maneira.
De hora em hora o mestre Ramos acendia uma girândola de foguetes adquiridos na cidade da Vigia, que davam uma ênfase especial à festividade durante os quinze dias de sua duração: sendo que, as seis, as doze e às dezoito horas o estouro de fogos era qualquer coisa de extraordinário, pois estouravam por vez nada mais nada menos que doze dúzias de fogos convencionais, intercalados por inúmeros foguetões que levavam bem longe a mensagem dessa festa.
Na Igrejinha, o repicar da sineta (uma roda de ferro adquirida na oficina do velho Saraiva) anunciava aos fieis que chegara a hora da ladainha: eram oito da noite, ai aquele povaréu todo se comprimia dentro da capelinha para contritos ouvirem o mestre Ramos, puxador oficial, dar inicio as belas orações que entoava acompanhado do velho Sergio, Antonio Casanova, tio Eugenio, Sabá-Bigode, Chico Moreira e Cassiano, prontamente respondidas pelas senhoras Chica Ramos, D.Deca, Augusta do João Rodrigues, D. Otávia, D.Lourdes, D. Carmelina, Izidia e Zita Gomes, Rosa e Maria Bahia, tia Teté, Amorzita e etc, estas todas acompanhadas por imenso coro de fieis que dava uma entonação muito linda à Ladainha.
Encerrada a reza, então chegava a vez do arraial, ai era bonito de se ver aquele povo todo num vai- e- vem constante. Rapazes e moças de mãos dadas passeando no largo ou fazendo juras de amor, assentados pelos bancos de madeira que guarneciam a pracinha.
No coreto central o mestre Antonio Paulo comandava o seu afamado Jazz com a costumeira animação de sempre, e entre os músicos existiam aqueles que gostavam duma boa pinga e então, meio calibrados, faziam o diabo com seus instrumentos tal a intimidade que tinham com os mesmos. Entretanto isso tinha uma finalidade: chamar a atenção das caboclinhas mais ingênuas, eis porque de vez em quando uma delas arranjava pra barriga.
Nas tavernas e botecos os caboclos se empapavam na cachaça e com isso davam sopa para que suas filhas escapassem para o mato. Isso geralmente acontecia quando começava o leilão apregoado pelo Albertino Barata, destro animador desse evento que, via de regra prendia a atenção de todo mundo ao anunciar a venda dos donativos ganhos pelo santo em sua peregrinação por inúmeros lugares; até mesmo fora do município. Era coisa que não acabava mais... Galinhas, patos, perus, ovos, frutas de todas as marcas, louças de porcelana e até de barro, anéis, pulseiras e cordões de ouro doados ao santo como forma de pagamento por graças e milagres conquistados... Brinquedos confeccionados em madeira e buriti: até um boi tinha sido doado por gente de posses, como forma de pagamento pelas messes alcançadas.
Claro que quem gostava mesmo desse movimento era a turma da bandalheira, pois enquanto os velhos estavam ocupados no leilão ou bebericando nas biroscas, a cabroeira estava fazendo o caqueado com a moçada por detrás das bananeiras... Menos mal, pois daqui a um ano o reverendo tinha porrada de moleques para batizar.
No dia dezenove completava catorze dias da festividade: nesse dia, ao ouvir o apito da lancha Santa Terezinha, todo mundo corria para o trapiche a fim de assistir a chegada do Vigário.
Era o velho padre Eurico, Pároco da vila de Mosqueiro que vinha todo ano para encabeçar a procissão, rezar a Santa Missa e batizar a molecada arranjada na festa do ano anterior, e também dar a comunhão para as beatas do vilarejo e seus arredores.
Ai ele permanecia na casa do Sr. Rezcalla Salame, o resto do dia e durante a noite e só na manhã do dia vinte é que comparecia ao vilarejo para o oficio religioso, em virtude de detestar a festa profana.
Tinha porem o velho padre alemão uma grande vantagem: batizava todo mundo sem distinção, bastava que para isso o candidato fosse pagão e comparecesse à capela. Com ele não tinha esse caso de só batizar quem é filho de casal, cujos padrinhos têm que fazer preparação prévia. Dava comunhão a todo mundo que quisesse comungar e no caso do candidato à comunhão ser do sexo feminino, ele nem queria saber se elas eram casadas, amigadas ou tico-tico no fubá, pois na sua ótica todo mundo era filho de Deus e até prova em contrário, quanto mais humilde e desprovido de felicidade, mais chance tinha o candidato para entrar no Céu.
Depois do batizado, benzia a agua e distribuía aos fieis e então, nesse momento aquelas pessoas que queriam a agua-benta, levavam as suas garrafinhas para que o padre as-enchessem; beijavam a mão do padre e recebiam suas bênçãos e seus conselhos.
Terminada a distribuição da agua, estava concluída a cerimônia religiosa daquele ano, então lá-se-ía o velho padre Eurico de volta à sua paróquia a bordo da Santa Terezinha.
Mas o bom da festa mesmo, era no sábado anterior ao dia vinte... Nesse dia toda a comunidade se reunia para fazer o levantamento do mastro, solenidade que o pessoal carinhosamente denominava o dia de levantar o Pau do Santo.
O negócio era o seguinte: lá pelo dia doze, os membros da diretoria atual iam para as matas e cortavam uma arvore com mais ou menos dez metros de comprimento: traziam-na para a casa de um dos membros da diretoria, aquele que estivesse mais perto do arraial; depois de descascada esta era toda enfeitada com frutos, flores e ramagem, especialmente de samambaia, (um arbusto muito bonito e abundante na região) e depois de ornamentada e amarrada uma bandeira com a imagem do Santo á sua ponta, esta ia solenemente aguardar o momento de ser enterrada.
Esse ritual era feito com grande pompa, pois os membros da diretoria, um número incontável de mordomos, iam até onde estava o mastro ricamente decorado, e, ao som do Jazz do maestro Antonio Paulo que, caprichava com os mais belos e maviosos dobrados e marchinhas da atualidade e também do seu repertorio, eles com o pau do santo às-costas dançavam freneticamente: dois passos à frente e um passo atrás até chegarem junto ao buraco que fora previamente cavado, e lá ficava o mastro enterrado até o final da festa que só acontecia no dia vinte a meia noite.
Ás dezessete horas do dia vinte, reunia-se a diretoria a fim de fazer a eleição para a troca de direção da festividade: nesse caso existia uma particularidade; as senhoras da terceira idade não podiam ser presidentes.
Logo depois de escolhidos os membros, lá se iam todos para o pé do mastro e começava aí um novo ritual: os membros da diretoria que ia sair começavam a cortar o pau... Cada membro tinha direito a dar um golpe de machado no mastro, porém de maneira desencontrada para que este suportasse os golpes de todos aqueles que quisessem cortá-lo. Ai também era dado oportunidade para os pagadores de promessa, pois cada golpe desferido representava o pagamento do milagre alcançado: essa regra valia para ambos os sexos e para todas as idades, e por isso era comum o camarada ver velhinhas de noventa anos querendo cortar o pau do santo. .
Quando não havia mais ninguém para cortar o mastro, ai então chegavam os dois presidentes: o que estava saindo dava uns dois golpes e passava o machado para o presidente que ia dirigir a festividade de São Sebastião pelo ano presente.
Este sim, desferia violentos golpes no mesmo lugar até que o mastro caía para gáudio da garotada que corriam para colher as bananas que, a essa altura já estavam bem amarelinhas.
Quanto ao resto das frutas que enfeitavam o pau do Santo, voltavam para o leiloeiro oficial e este oferecia tudo de uma só vez pelo maior lance alcançado.
Com este ato, ficava encerrado o compromisso da diretoria em si, porem a festa prosseguia até meia-noite por conta dos barraqueiros que faziam a venda no arraial durante a festividade.
Agora era só esperar que a diretoria atual, ou seja, a nova diretoria desse seqüência a essa bela demonstração de fé que o povo de Santa Bárbara devotava ao seu Padroeiro o glorioso São Sebastião.



FIM.



Passarinho escreveu.